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Deus e o Domingo

Sei de tantas coisas quase infinitas que existem mas nenhuma delas me toca nenhuma delas invade a quitinete engordurada infestada de insetos coisas puras e transcendentais não descem das alturas pra confortar a carcaça de 31 anos a solidão tem um lado insalubre de secreções tristes a solidão nunca é uma escolha isso tem outro nome se Deus existe nunca foi a questão: resta saber se existindo o que fará por mim neste domingo em que apodreço com os restos de comida na pia. 

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A DOR

É preciso respeitar a dor.
Acordar pela manhã e dizer: Fora luz da manhã Fora cidade renovada Fora beleza epifânica fiquem longe passarinhos urbanos: agentes infiltrados da alegria.  Fora chuvinha inesperada que dizima o calor e nos arrasta para uma caminhada entre árvores que dizem: basta esperar estoicamente.
Hoje eu só quero sofrer.
Ficar imóvel. Concentrado em cada cutilada, em cada espasmo nos suspiros ansiosos.
Suportar sóbrio o tédio de uma vida imobilizada. Suportar nos ossos a revolta sangrenta do corpo querendo seus estímulos sua fatia de víveres químicos.
Ficar imóvel por horas sentindo o sofrimento se contorcendo. Mordendo. Arrancando com presas cegas a polpa de transcendência a polpa figurativa. a polpa da memória a polpa da esperança.  
Mas o imenso parasita do sofrimento uma vez farto, cedo ou tarde abandona a carcaça.

A dor ainda era um privilégio um sintoma que dimensionava a nobreza de um sentimento evanescente a dor é a insígnia que significa:   teve a coragem de sentir.    Não é…

se eu tivesse morrido ontem

Ontem tive um mal-estar suores e uma agonia gélida o corpo ventilando-se ante um calor apocalíptico o frio e o calor divididos por um fio nítido
a vista lentamente escurecendo só tive ânimo de recolher todas as garrafas de bebida e latas de cerveja e jogá-las no lixo vizinho havia prometido pra minha mãe parar de beber e quando me encontrassem já cheirando mal (não conheço ninguém nesta cidade) na quitinete suja com tudo fora do lugar não queria de maneira alguma legar à minha mãezinha meus vícios tristes
e uma conta negativa.

ANJO SEM SALÁRIO

Imagine um Anjo sem o revestimento cinematográfico e pictórico até mesmo sem o revestimento Bíblico imagine apenas um homem de 30  com sobrepeso e precoces entradas
um anjo que não está mais na folha de pagamento de Deus e nem do Diabo mas mesmo assim permanece realizando seu trabalho em condições precárias, é bem verdade sem dinheiro, abusando da bebida viciado em pornografia (sintomas da imensa solidão) mesmo assim todo dia ele realiza seu trabalho usando um smartphone antigo e um notebook ele chega aos esquecidos refaz sua rotina para se adequar ao guarnecido luta contra os demônios sem nenhum truque ou magia
às vezes perde muitas vezes perde mas o treinamento lhe arraigou um incontornável instinto e seu faro para a melancolia permanece infalível
mas sem verba, sem equipe de apoio improvisa do começo ao fim e a partir dos limites humanos se desdobra por zonas que exigem truques de ubiquidade resistência ao isolamento extremo resistência à ingratidão porque dos dez leprosos curados nenhum volt…

TE SINTO

Te sinto

É um querer, (não vou dizer o nome para não te constranger) , pois bem, é um sentimento afetivo, dizem, intransitivo (mas não pegou bem né ?) retomando: sinto algo por você um desejo com filiações transcendentais que parece derivado de várias vidas desde que se inventou o indizível     ali por volta do século 12
um sentimento, um desejo, um querer bem resolvido com ótimas sacadas que tudo indica ter sido aperfeiçoado por gente criativa e ociosa uma vontade de você que foi lapidada em escuras oficinas por gente dolorida exausta mas persistente, como alguém sem patrimônio que transforma sua força numa coisa palpável
enfim, eu sinto por você a soma de todas as tecnologias verbais gestuais e carnais que o pobre Ser terreno desenvolveu para transpor o cabo  da boa esperança, para sair de seu continente faminto-restrito.

Te sinto II
Ontem teve uma conferência de sósias suas na rua que passeio com minha solidão entediada teve uma hora que elas se revoltaram e me atravessaram. Passaram não como …

A função dos deuses

Os deuses apertam cronômetros. É só o que fazem por toda a eternidade. É quase um trabalho braçal. Apertam. E os números disparam como a eletricidade.
A cada três trilhões de anos eles dão   uma espiada desinteressada: alguém esperando uma mensagem, um e-mail, uma carta, a chuva, alguém sozinho por anos rascunhando. Alguns incinerando milhões de corpos. Outros cerrando pessoas. Outros parados olhando um cronômetro imaginário. Riem: “Olha aquele lá: mal sabe... Hahah”. E olham a contagem.
Quando o marcador para, desaparece instantaneamente junto com a existência anexa. Nada de alguém folheando um caderno procurando teu nome e dizendo: “É meu amigo, parece que você não se saiu muito bem”
Apenas apertam. Bilhões de contagens regressivas. Nada de nomes. O nome é a mais fraca das convenções. Cem anos é menos que um sexto de um centésimo. A verdade é que não usam nossas convenções numéricas. Digo cronômetro para ser didático.
Mas são milhares de deuses. Reunidos. Ativando. Nunca desativam. Ativam e quand…

A estética melancólica de W. G. Sebald

A estética tem sua origem, segundo Eagleton (1993), nos sentidos, no corpo. Porém, no século XVIII a razão tentou mapear a percepção deixando de lado a sensibilidade corporal. Isso distanciou a estética da vida material, o que talvez tenha criado o equívoco de que o estético deve recuar diante das coisas concretas e politicamente delicadas, ou mesmo de catástrofes em que o sofrimento real, fisicamente incontornável, tornaria a estética uma leviandade intelectual. Porém, dificilmente, poderíamos conceber a estética fora e distanciada do corpo, com todas as suas dores e miudezas sensórias. O conceito racional de estética nos fez acreditar que os sentimentos físicos são um subproduto da percepção. Mas um conceito que cresce negligenciando a origem mais imediata de todas as sensações, facilmente assume um aspecto negativamente ideológico, no sentido de inverter valores, e encobrir a realidade imediata, em vez de mostrá-la, algo bastante grave, segundo Terry Eagleton: “nada poderia ser mai…